A Idade Média foi um período caracterizado por um sistema de produção e consumo baseado no apoio recíproco e na combinação entre economia agrária e silvo-pastoril, onde o território rural é enfocado, suplantando o espaço urbano que predominava anteriormente, na época romana. Assim, a alimentação medieval passa a ser designada pela variedade dos recursos e dos produtos consumidos, oriundos não apenas da agricultura (cereais, leguminosas, legumes), mas também de terras não-cultivadas, providos de caça, pesca e animais criados nas clareiras e bosques.

Através de documentos, principalmente iluminuras e textos religiosos, mas também algumas crônicas, livros de cozinha e anotações médicas, é possível visualizar os tipos de alimentos consumidos pela população medieval europeia. No entanto, a maior parte deste acervo retrata a alimentação nobre, especialmente as realizadas em banquetes. Assim, destaca-se entre os mais ricos ingredientes e pratos mais sofisticados e variados, que em sua maioria não poderiam ser preservados por um longo tempo, sendo consumidos em determinadas estações. Já a população camponesa consumia alimentos diretamente retirados do solo, como também pães, cortes baratos de carne e peixe. Durante más ou insuficientes colheitas, era comum consumir o alimento em condições inadequadas, principalmente oriundo das colheitas passadas, o que podia resultar em doenças e até mesmo efeitos alucinógenos.

O trigo, de variadas espécies, era um dos grãos mais importantes da Europa medieval, sendo utilizado para o preparo de pães e consumido pela população em geral, essencialmente pela classe religiosa. Em grande parte europeia, era comum guildas de padeiros, sendo umas das associações de “profissionais” desenvolvidas mais cedo. Existe uma variedade significativa de pães medievais, onde aqueles oriundos de grãos mais finos (além do trigo, há cevada, centeio, painço) são destinados aos lordes, consumidos com carnes e bebidas alcoólicas.

Preparação de pães. From Ulrich von Richental. Chronik des Konstanzer Konzils, ca. 1470. Cod. Vind. 3044, fol. 48v. Courtesy of Österreichische Nationalbibliothek, Vienna (Photo: Bildarchiv, ÖNB Wien).

Os legumes popularmente consumidos eram o grão de bico (França, Espanha, Itália e Sicília) e a ervilha. Feijões branco e de fava faziam parte da alimentação, porém eram envoltos por superstições, provavelmente por causar flatulências, sendo associado ao sobrenatural e à morte.

Alho, cebola, repolho, cenoura e beterraba eram alguns dos vegetais consumidos no período. Crenças populares eram também atribuídas a vários desses alimentos, como o alho incitar a luxúria e o repolho causar melancolia e pesadelos. Muitos vegetais eram consumidos praticamente só pelos camponeses, como a cebola e a beterraba. Além disso, há uma variedade de ervas (anis, mostarda, aneto, salva, etc), utilizadas em pratos e para combater algumas doenças e dores; nozes (amêndoas, pinhões, etc), frutas (maçã, peras, uvas, etc), condimentos (mel, água de rosas, sal, gengibre, etc) e carnes (ganso, cordeiro, porco, coelho, veado, etc).

Porcos sendo abatidos e cortados para consumo. From Tacuinum sanitatis in medicina, 14th century. Cod. Vind. Series Nova 2644, fol. 74v. Courtesy of Österreichische Nationalbibliothek, Vienna (Photo: Bildarchiv, ÖNB Wien).

Manteiga e queijo eram fabricados principalmente com leite de vaca e cabra, o qual destinava-se basicamente para essa produção e se tomado, apenas pelos pobres. Ovo era outro alimento bastante popular, sendo usado tanto como ingrediente secundário, como em sopas e molhos, como ingrediente primário, como no preparo de omeletes.

Alimentos como a batata, o tomate, milho, cacau e o peru eram desconhecidos pelos europeus durante a Idade Média, sendo incorporados apenas com a descoberta do “Novo Mundo”. No entanto, muitos dos grãos, ervas, frutas, legumes e vegetais foram introduzidos de outras regiões em períodos anteriores à Idade Média, como o trigo (nativo da Ásia Ocidental), o alho (originário da Ásia Central) e a eggplant (originária da Índia, mas introduzida na Europa medieval pelos árabes). Sendo assim, além de diversos alimentos já oriundos da Europa, uma gama de espécies estrangeiras já eram cultivadas pela população medieval europeia.

Há também as bebidas alcoólicas, que desde a Antiguidade já possui grande destaque no cotidiano das sociedades europeias, sendo evidenciadas o vinho, cerveja, cidra e hidromel. Junto aos pratos elaborados, as bebidas são consideradas essenciais para a realização dos banquetes e a partir da Idade Média torna-se também parte das tabernas.

A obra retrata a corte bebendo vinho e servindo-se de carnes diversas junto ao pão. Expressa a valorização desses alimentos pela nobreza e a rejeição dos alimentos do solo através da ausência destes nos pratos, presentes somente nas bebidas e pães (que ainda se caracteriza como acompanhamento, recebendo pouca atenção), após demorado processo de fermentação e preparo, constituindo uma transformação para poder se apresentar à corte. – Watriquet de Couvin, França, séc. XIV (Paris, Bibli. Arsenal, ms 3525, fº 88, vº)

Tais banquetes realizados pela nobreza ressaltavam importante valores sociais, muito associados à uma noção e ideal de civilidade, envolvendo questões estéticas, espaciais, transformações culturais dos alimentos e modos comensais. Quanto à estética, ressaltava-se a ornamentação do ambiente, valorizando utensílios de mesa que transmitiam poder e riqueza, além da própria aparência dos pratos servidos. Toalhas de mesa, preferencialmente de fios finos e com complexos bordados, eram ostentadas durante a organização do banquete, levando os comensais a portarem lenços a fim de evitar que limpassem as mãos e boca nos bordados. Apesar de utilizarem predominantemente as mãos para comer, facas e colheres de prata eram frequentes nos banquetes, assim como taças (estas podendo ser de madeira, argila, chifres e metal) e pratos. Além disso, os salões eram ornados com tapeçarias e recebiam animadores e músicos.

A espacialidade e organização da posição dos convidados possuía também grande significado em relação à hierarquia social. Os alimentos e bebidas de pior qualidade eram direcionados para os comensais mais distante da mesa dos senhores, considerados de uma camada inferior da estrutura social. Usualmente, estes convidados sentavam-se em bancos, enquanto as cadeiras eram reservadas para os mais nobres. A disposição dos convidados atrela-se também a fatores de organização social, estabelecendo e reforçando a sociabilidade entre grupos socialmente mais próximos, elegendo a comensalidade como formadora de alianças e reguladora de condutas e normas de etiqueta associadas a uma estrutura de comportamento esperada e valorizada.

As transformações culturais dos alimentos, no sentido de envolver um alimento retirado da natureza em complexos processos e técnicas de preparo, constitui como um forte ideal da sociedade medieval. A distinção entre camponês e nobre era demonstrada pelo significado hierárquico dos pratos, ou seja, alimentos mais próximos de seu estado de natureza, consumidos sem (ou com poucas) modificações após retirado do solo eram associados à classe baixa, enquanto alimentos que passaram por processos de modificação e preparo complexos são atribuídos à nobreza. Além dos produtos oriundos do solo, a própria carne e sua forma de consumo expressa essa valoração, enquanto os camponeses comiam normalmente a carne apenas cozida e como complemento, a nobreza opta por assados e grelhados (em espetos ou grelhas).

Os pratos não eram simbolicamente valorizados apenas qualitativamente, mas também em quantidade. Comer pouco é atributo designado aos pobres, enquanto comer fartamente é característica do nobre, além de sinônimo de poder. Essa relação é visualizada na exclamação do arcebispo de Metz:

Um homem que se satisfaz com uma refeição modesta não pode reinar sobre nós.”

Portanto, a alimentação medieval, como a sociedade no todo, constitui-se hierárquica. Enquanto o camponês ocupa lugar essencial para a subsistência e equilíbrio alimentar, possuindo papel nas atividades de produção vinculados ao solo e a floresta, a nobreza se diferencia se atrelando às atividades de caça, que denotam simbolismo de força e ação militar, sem demonstrar interesse pelo trabalho agrícola (a não ser na coleta das taxas de seus feudos). O comportamento alimentar cada vez mais é caracterizado como modo de comunicação e diferenciação social, pois a posição que cada indivíduo ocupa na sociedade condiciona a relação com os produtos oriundos do solo e da floresta e das áreas cultivadas, como um sistema integrado.


Referências bibliográficas

ADAMSON, Melitta Weiss. Food in Medieval Times (Food through History). Connecticut, Greenwood Press, 2004.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. 2ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1994.

FLANDRIN, Jean-Louis, MONTANARI, Massimo, organizadores. História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade; 1998. 885 p.


A AUTORA

Manoela Castejon (Brasília) é bacharel em Antropologia pela UnB (Universidade de Brasília) com ênfase em Antropologia Alimentar. Autora do blog “Contos da Taberna”, atua também como cosplayer.

http://contosdragonianos.blogspot.com


Texto de Manoela Castejon em colaboração com o blog “Entre Mundos”. Proibido a reprodução total ou parcial do conteúdo sem a autorização prévia do autor. Permitido citar o texto e linkar a postagem.